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E então, o pequeno de 3 anos em fúria grita para a sala:

– Eu sou macho!!!

E sua colega, que estava ao lado, tomada verve do amigo, grita:

– E eu sou macha!!!

Na aula de educação física dos pequeninos de 3 anos, após a explicação do professor sobre futebol:
– Pofessor, sabia que me pai é atacante?
– Ah, é, G.? E vc é o que?
– Eu sou zagueiro, porque a minha mãe é a defesa!

Escape myself

Às vezes eu penso que se eu viajasse para fora do Brasil e passasse mais de 1 mês, eu não voltaria mais. Normalmente, quando eu penso isso, é porque penso que esse outro país seria um pouco Passárgada. Além de eu ser amiga do rei, seria ele meu escape. Mas no fundo eu sei que o escape só é bom como escape.

Eu não fantasio sobre um país melhor, sem isso ou aquilo, com isso e com aquilo. No meu devaneio, eu viajo de mim. E tudo fica tão mais leve…

Marcelo Rubens Paiva – O Estado de S.Paulo

Existem mais de cem tons de cores. Mas prefere o preto. Cítricas? Só quando vai à praia. E costuma cobrir suas pernas esticadas, finas, com meias pretas.

Usa botas. Não existe mulher que se veste melhor do que as paulistas. E que saiba qual bota escolher e como andar sobre elas. Sabe o equilíbrio entre o moderno e o convencional. Senso estético apurado. Dona do seu próprio estilo.

A paulista não anda, caminha apressada. Vem e passa. Sem balanço. Sem mar para ir atrás. Moça do corpo pálido. Saturado pela pressa. Beleza que passa sozinha.

Não faz questão de chamar atenção. Nem tanta questão de ser gostosa, mas magra. Sempre de dieta. Sempre em guerra contra a balança.

Malha para se afunilar. Intensamente, pois sabe que a gastronomia da cidade é uma tentação. Massas, pizzas, doces, sorvetes, doces, nhá benta, tesão… Academia? Prefere pilates, que estica até o limite das juntas, quase rasga em duas. E corre, se quer emagrecer urgentemente.

Olhando o chão, pois já tomou muitos tombos por causa das calçadas irregulares da cidade, uma anarquia de desníveis, pedras, buracos, pisos sem um padrão seguro para o seu caminhar apressado de botas, meias e pernas finas. Rebolar? Fora de questão.

Olha para o chão e se lembra do que esqueceu, do quanto falta, do que faz falta, do que está errado. A garota de São Paulo é perfeccionista, gosta de estar ajustada, como as engrenagens de uma indústria. Quer a precisão da esteira de uma linha de montagem.

Passa e olha para o chão, pois pensa nas atividades, nos prazos atrasados, nos compromissos da semana, na agenda do mês.

A garota de São Paulo leva uma vida saudável. Procura comer verduras sem agrotóxico. Leite? Desnatado. Carne vermelha? Eventualmente. Carboidrato à noite? Nem pensar. O pão tem que ser integral. Linhaça e aveia no café da manhã? Obrigação. Café descafeinado. Chás. Queijos brancos, magros.

Nada industrializado, a não ser a caixa de Bis, que detona algumas vezes em certos períodos, que por vezes tem o intervalo longo, mas quando se torna um vício, chora, porque algo deu errado, desembrulha e engole cada Bis, como se nele a explicação das incoerências.

Recicla o lixo. Toma remédios para dormir. Toma excitantes para acordar. E aguentar a jornada.

Ela é ambiciosa, trabalha demais, em mais de um emprego, pensa em dez coisas ao mesmo tempo, procura conciliar a organização do lar com a de fora dele.

Ama e odeia o chefe. Ama e odeia o trabalho. Sabe que ele dá a independência para ser a moça que quiser, mas também tira o tempo de ser a moça que queria ser. Metade dela sofre o descarte para a outra parte florescer.

Adora elogios. Odeia galanteios. Adora presentes. Detesta insistentes. Quer ser cortejada. Jamais abusada. Sorri quando assopram um elogio. Fecha a cara quando ultrapassam o limite da sua intimidade. Preserva a privacidade.

Algumas querem ser chefe. Chefiar garotos de São Paulo. O que só dispara seu conflito maior, o de agregar. Terá que dar ordens, broncas, demitir, exigir, estipular metas, cobrar eficiência. E depois sozinha em casa chora no escuro ao som de Billie Holiday. Se sente pressionada, e ela não sabe por quê. A vida não faz sentido, e ela não sabe por quê.

Chora em comerciais da TV, cerimônias de casamento, em maternidades, quando visita as amigas, no farol, quando uma criança vende bala.

A garota de São Paulo dirige bem. O problema é que se maquia enquanto fala no celular e ultrapassa um busão articulado, aproveitando a brecha entre ele e uma betoneira lotada de concreto. E se esconde no anonimato do insulfilm, muda a música do MP3 e, dependendo dela, canta sozinha em voz alta, para não ouvir impropérios.

Faz tanta coisa ao mesmo tempo… Dirige bem, mas é dispersa. Pensa em vinte coisas em dez segundos. Nunca chega a uma conclusão.

Liga para a mãe semanalmente. Troca poucas palavras com o pai. Detesta a esposa do irmão. E ama as amigas. Com quem viaja para a praia, para não ficarem um segundo em silêncio. Se o tempo não dá chances, prefere uma tarde na piscina do condomínio com as amigas do que encarar o parque lotado.

Se irrita com homens que falam de dinheiro. Se irrita com homens que contam vantagens no trabalho. Se irrita com homens grudentos, esnobes, arrumadinhos, fúteis, incultos, mal-educados.

Gosta de homem interessante. É assim que ela seleciona: os interessantes e os não. O que é um homem interessante? Nem se gravar o papo de seis horas na piscina com as amigas consegue-se descobrir.

Tem que ser aquele que chega e não dá bola. Mas que a repara bem antes de ir embora. Que olha como se ela fosse a mais fosforescente das mulheres. E que desse um jeito a todo custo de trocar meia dúzia de palavras e, claro, criar laços e conexões.

Mas se nada der certo, garotos, não esquentem a cabeça. A mulher de São Paulo sabe seduzir. Sabe olhar e demonstrar. Sabe chamar atenção e indicar que você foi o escolhido. Sabe sorrir, ser paciente com a sua demora, ouvir atentamente os seus devaneios e engasgos. E, quando parece tudo estar perdido, sabe dizer a hora de ir embora, como e sugerir na casa de quem.

A garota de São Paulo não enrola. Quando não quer, deixa claro. Quando quer, faz de tudo para acontecer. E não tem o menor pudor de ir para a casa com você na primeira noite, preparar o café da manhã da primeira manhã, que logo, logo, ambos saberão se vai se repetir ou ser o único.

Pode deixar. Andando de volta para casa, com suas meias pretas e botas, olhando para o chão, ela pensará em você.

Tudo isso é uma generalização literária. Mas me dá licença, poeta, para uma licença poética, homenageando sem pedir licença a graça pragmática da mulher paulista.

é.

E então eu me pego tristonha, com vontade de chorar, por uma coisa besta… E me perguntou: quando é que eu vou parar (de ser assim)?

Sim, sim, por questões compreensíveis, razoáveis e racionais, ele não vai. Mas precisa sentir tanto assim? Precisa sentir tanto? Precisa? Mesmo? Can’t you just keep going? Holly shit!

E me vejo, então, na situação de repensar tudo. O sentido da vida.

E é duro ressignificar quando a gente queria mesmo era permacer com aquele significado.

Saudade

Que saudade de escrever aqui!

Mas acho que o bom da vida é isso… a gente sentir saudade e poder voltar, não é mesmo? De resto, a gente chora na cama com uma boa trilha sonora.

86 anos

E ela saía em uma Pajeiro TR4 da cor vermelho queimado, e eu dizia:

– Vó, onde vc vai?