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Archive for abril \24\UTC 2011

Por Danuza Leão
Folha de São Paulo, Cotidiano, 24 de abril de 2011


Ah, ser mãe é difícil; não existe filho que não tenha dito um dia -ou pelo menos pensado- “ai, não aguento minha mãe”, e o pior: com toda razão. Como todas elas gostariam de ser adoradas por seus filhos queridos, existem coisas a serem evitadas. Estou falando de filhos já adultos, claro, pois cabeça de criança é diferente.
Toda mãe tem vontade de telefonar para o filho -e para os dez, se eles forem dez- várias vezes por dia. A primeira de manhã, para saber se está tudo bem e como vai ser o dia dele, isto é, onde vai almoçar, com quem, a que horas etc. E assim como quem não quer nada, se vai sair à noite -para onde, com quem etc. Primeiro conselho: não telefonar de manhã.
Resista também à vontade de telefonar na hora em que você sabe que ele está chegando do trabalho. Coração de mãe é um relógio: sabe sempre. Deixe seu filho em paz, mas esteja sempre à disposição, a qualquer hora do dia ou da noite, para ouvi-lo reclamar do trabalho, da mulher, do filho, e coisas do gênero.
Quando ele disser que vai viajar, não peça, jamais, o telefone do hotel, e não pergunte jamais, mas jamais, que dia ele vai voltar; se não resistiu e perguntou, se segure, corte o fio do telefone, ateie fogo às vestes, faça qualquer coisa, mas não telefone para ele na manhã desse dia. Faça assim: quando ele ligar, finja surpresa e pergunte, como quem não quer nada: “mas você não ia chegar na semana que vem?” Vai ser um alívio ele saber que você não passa a vida só pensando nele.
Mãe, acalme-se; já que você adora tanto seus filhos, seja boa mãe, e não dê palpite sobre nada, a não ser quando consultada, e mesmo assim, cuidado com o que vai dizer. Se ele se queixar da mulher, não aproveite a chance para dizer tudo o que está atravessado na sua garganta. Fique quieta, calada, porque eles vão fazer as pazes -que é o que você deveria almejar- e vai acabar sobrando pra você.
Tem hora pra tudo, inclusive -e principalmente- pra mãe.
É claro que ele te adora, se não fosse você, ele não existiria etc., mas dê um tempo: ninguém suporta ser tão fundamental à felicidade do outro, como as mães costumam deixar sempre tão claro. É verdade, mas nem todas as verdades precisam ser ditas.
Quer saber o que é uma mãe confortável? É aquela que tem vida própria; ou porque joga pôquer e ninguém vai tirá-la da rodinha de sábado, ou porque tem um namorado e por isso não vai poder cuidar dos netos, ou porque é viciada em shoppings, qualquer coisa. É aquela que não diz, jamais, “eu avisei”.
É claro que eles vão reclamar que não contam com você para nada, que você é egoísta e imprestável, mas se pudessem escolher entre uma mãe que sufoca de tanto amor, e a outra, que vive e deixa viver, sabe qual ele ia preferir?
Goste dele mais que tudo neste mundo, mas não diga nada -nem com palavras, e muito menos com o olhar. E não fique triste ao constatar que ele se importa muito mais com seus próprios filhos do que com você: a vida é assim mesmo, e o amor de cima para baixo -de mãe para filho- é muito maior do que aquele de baixo para cima -de filho para mãe.
Ele também vai ficar triste quando, já avô, perceber que seus filhos gostam muito mais de seus próprios filhos do que dele, e vai entender que isso é natural.
Nem bom nem ruim, nem justo nem injusto: apenas é.

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… even seventeen years later.

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